A bendita estrela de Lula eclipsou no momento em que o câncer se instalou no seu corpo? Ou será mais uma barreira que o ex-presidente irá superar para se recolocar na linha de frente da nova corrida ao poder?
Morre-se cada vez mais de câncer no mundo todo. Ainda assim, o câncer
não se tornou uma doença comum. Ela chega com uma carga emocional muito
forte, como um estigma. O doente reage com uma dor moral. Parece que o
câncer é uma punição, um castigo merecido.
“Por que eu?”, pergunta-se quase todo paciente. Sente-se como um
pecador diante das pessoas sadias, ou daquelas nas quais a terrível
doença ainda não se manifestou. Poucos se comportam como se tivessem um
tipo comum de moléstia.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a passar por essa via crucis.
Seus próximos três meses, pelo menos, serão dedicados a combater o
tumor maligno que se instalou na sua laringe, impedir que ele se
propague e recuperar sua vitalidade.
Alguns dos seus hábitos o expunham ao mal: fumava cigarrilhas tanto
quanto tomava álcool - e abusava das comidas gordurosas. O futebol de
fim-de-semana não era antídoto para o sedentarismo de suas atividades,
parte delas o obrigando a permanecer longos períodos sentado e outra
parcela lhe impondo movimentação frenética.
Apesar dos avisos que o corpo passou a lhe dar em tempos mais
recentes, nem Lula nem a opinião pública cogitavam de vê-lo atacado pelo
câncer. Sua vitalidade e sua invejável vontade de vencer, além de uma
sorte excepcional, pareciam capazes de anular os fatores adversos da sua
constituição física e da sua rotina estressante.
A doença, agora, não é só um drama pessoal do ex-presidente, da sua
família e do círculo mais íntimo de pessoas em torno dele: é um fato
político. Por incrível que possa parecer, mais importante do que os
escândalos, seguidos de demissões, que demarcaram cada mês do governo da
presidente Dilma Roussef, ou qualquer outra movimentação já feita no
tabuleiro do poder.
Não é preciso recorrer a profundas análises da situação para chegar a
essa conclusão. Posso dar o meu testemunho a respeito. Estava
finalizando o livro do jornalista José Nêumanne Pinto (O que sei de Lula,
Topbooks, 522 páginas) quando saiu a notícia da doença do presidente,
dada quando ele deixou o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, na manhã
do dia 29.
Minha atitude e minha expectativa em relação ao livro mudaram
imediatamente - e de forma bem espontânea, sem nenhuma iniciativa
consciente da minha parte. Aquele conjunto de fatos espantosos, formando
o “outro lado” da personalidade e do significado de Lula, perderam sua
força. Não por seu significado em si, mas pela conjuntura na qual eles
se inseriram.
A dor moral que passa a atormentar o canceroso (na rude expressão,
descartada pela sintaxe politicamente correta, que segue a linhagem já
expurgada da linguagem em torno do leproso de outros tempos) tem, como
compensação, a misericórdia, a simpatia e a solidariedade da esmagadora
maioria da sociedade (exceto os selvagens acobertados pelo anonimato na
rede mundial de computadores).
O duro e sofrido preço que o ex-presidente pagará no combate ao mal
lhe concede, desde já, um habeas corpus preventivo às críticas, às
revelações negativas e mesmo ao exame isento da sua presença na vida
pública brasileira. Todas as especulações sobre a sucessão do presidente
da república no exercício do cargo, que começaram mal ele tomou posse,
estarão condicionadas, a partir de agora, ao desfecho do drama de Lula.
Ele é um predestinado até nessa circunstância. Imobilizado, decide tanto
quanto em plena articulação política.
Neste momento, o mais provável sucessor de Dilma em 2014 é, não ela,
com o direito consuetudinário à reeleição e projetada por índices de
popularidade recordes, superiores, no mesmo período, ao do próprio
antecessor, mas o próprio Lula. A seu favor conspirava o tempo que sua
criatura ainda terá pela frente, com o acúmulo de dificuldades, em
função dos aspectos malditos (conforme o jargão sucessório) da herança
que o padrinho lhe legou. O maior deles, o excesso de gastos públicos
(sem os quais, porém, a eleição de Dilma teria sido mais difícil), o
comprometimento de recursos futuros (sobretudo, através do BNDES, a
aliados, selecionados e afinados), a extrema dependência da exportação
de commodities (incluindo recursos naturais não renováveis), a expansão
descontrolada do crédito (como “nunca antes na história do Brasil”), o
incremento das importações como resultante do comércio internacional e o
custo das compensações pelas desigualdades sociais e espaciais
engendradas por esse “modelo de desenvolvimento”.
Por enquanto, o governo tem conseguido harmonizar essas várias
frentes adversas e se mantido em equilíbrio político, mas com
precariedade. O trato publicitário e emocional com as expectativas da
população atenua ou camufla os problemas mais graves. O quadro do
futuro, porém, dependerá da evolução do tratamento médico de Lula e da
sua reação à doença. Ele poderá reaparecer como o candidato imbatível à
nova eleição ou como uma bandeira emotiva para o PT, se ele tiver que se
afastar da vida pública ou sucumbir ao mal.
De qualquer maneira, desconsiderando seu pungente drama pessoal, que
ninguém saudável (ou são) pretende para si nem para os outros, a trilha
que ele seguirá nestes próximos meses o levará a patamares ainda mais
altos, se não se defrontar com novas surpresas desagradáveis. A
tendência nacional de ficar ao lado da vítima poderia colocá-lo nas
alturas de Getúlio Vargas, embora toda a carreira sindicalista e
política de Lula tenha tido, como um dos seus objetivos laterais, apagar
do inconsciente coletivo a imagem do pai dos pobres anterior a ele.
Tornar-se o único.
O estudo do carisma e de outros componentes subjetivos da
personalidade de grandes líderes políticos ainda é deficiente e
insuficiente entre nós. A reação que a análise marxista estimulou contra
a glorificação de heróis levou a males equivalentes no outro extremo. A
história se transformou em produto de grandes estruturas, com ênfase
nas econômicas. Deixou de ser o resultado vivo da ação humana, com suas
condicionantes externas, é verdade, muitas vezes determinantes, mas
também com suas aberturas ao imprevisível, paradoxal ou, mesmo, absurdo.
O reducionismo marxista, explícito desde os manuais escolares de
história e geografia, chegando até aos livros de literatura, desfavorece
a percepção do sentido histórico contido nos atos dos seres vivos, no
momento mesmo em que eles atuam na chamada conjuntura. Conceitos
refratários à demonstração, como imperialismo, burguesia, reacionarismo et caterva
esmagam as individualidades e tiram da história o que a define: seu
conteúdo humano. Tudo passa a ser efeito de maquinações, de
determinações pré-existentes. Jogo de marionetes.
A saturação desses esquemas explicativos talvez ajude a entender o
sucesso de livros sobre história e política escritos por bons
jornalistas, atentos aos fatos, sem se deixarem aprisionar pelo
minimalismo da crônica impressionista. José Nêumanne Pinto enveredou por
esse caminho. Desde o título do livro (O que sei de Lula),
passando pela foto da capa (o ex-presidente, que teve uma infância dura,
sem fantasias, se agachando para pegar um carro de brinquedo), e
chegando com um estilo literário como forma de abordagem (o jornalista é
também ficcionista).
O livro é mais do que uma grande reportagem: é um ensaio de
interpretação. Com abundância de referências a fatos e a outras
interpretações, ele mostra que Lula, ao escapar à miséria, ao anonimato e
ao esmagamento a que está sujeita a grande maioria dos brasileiros,
saiu fortalecido, como nenhum outro líder do seu tempo (e raros em toda
história do Brasil), para empalmar o poder, como gostam de dizer os
políticos profissionais.
De todos eles Lula se distinguiu por sua origem de retirante
nordestino que consegue chegar à maior cidade do continente (e das
maiores do mundo) e galga seus patamares desde a base mais rés-do-chão,
tomando-a como impulso para uma carreira com poucos similares na
história universal. Nenhum outro rival podia competir com ele nesse
fundamento, como se diz agora nos esportes.
O problema deu-se a partir daí. Lula foi se amoldando ao padrão do
passado à medida que chegava próximo do topo. As tropelias, malfeitos,
traições, fraudes e crimes que foram se acumulando em torno dele, sempre
o beneficiando, sem jamais o macular perante o grande público, não o
impediram de continuar a perseguir o máximo, passando por cima das
barreiras que fossem surgindo. A “metamorfose ambulante”, termo que usou
na autodefinição, tornou-se imprescindível para que ele não ficasse
pelo caminho. Ao final da corrida, o que restou?
Um líder nato, um homem dotado de instintos e inteligência
excepcionais, guiado pelo seu conhecimento empírico, incrível
aproveitador do melhor que a experiência lhe proporcionou para se tornar
num grande comandante de massas, mas amoral, incapaz de orientar o seu
governo por princípios inovadores consistentes, que constituíam o maior
compromisso do PT.
Ignorando tudo que diz respeito ao conhecimento intelectual, colocou a
economia nacional no piloto automático em que o governo de Fernando
Henrique a deixou. Vigiando os sinais vitais da atividade produtiva, um
financista internacional, tucano de origem, o banqueiro Henrique
Meirelles. Manipulando os cordéis das políticas sociais compensatórias,
que os tucanos também criaram, mas, por seu vezo elitista e tom
acadêmico, mantiveram como decoração e perfumaria, a “companheirada” e
os súditos fieis, como o célebre Delúbio Soares, capazes de se
sacrificar pelo chefão, o godfather.
O Brasil que FHC construiu ficou ainda maior e melhor depois dos oito
anos de Lula, que não hesitou em gastar o necessário para manter uma
proporção sem igual de brasileiros ao seu lado, para o que desse e
viesse. Mas esse Brasil, que come frango e compra carro ou moto como
antes se comprava pão, também se tornou ainda mais violento, desigual,
sem ética, viciado em “jeitinhos”, corrupto como “nunca antes”, de alto a
baixo, quase como vítima de uma ameba maligna sem limites para se
expandir.
Nêumanne tentou o grande ensaio sobre Lula e o seu tempo, mas nesse
aspecto não atingiu o objetivo. O livro podia perder um terço de suas
páginas sem o menor prejuízo. Adotando a técnica literária de repetir
para acrescentar dados a cada novo capítulo, o jornalista se excedeu. O
trabalho ficou repetitivo demais, como se, afinal, ele quisesse
engrossar um tomo que, por natural, seria bem mais magro. Em páginas e
em conteúdo, uma ossatura pretensiosa com enchimento de menos.
O que Nêumanne tentou realizar e não conseguiu continua a ser um
grande desafio para quem quiser enfrentar o enigma Lula e ajudar a nação
a entendê-lo melhor. A tarefa se tornará mais árdua a partir de agora,
com o componente da doença a atiçar a subjetividade do país, liberando
instintos e crenças.
Quaisquer que venham a ser os desdobramentos desse novo capítulo da
história dos nossos dias, pode-se perguntar sobre o destino do
ex-presidente. O suicídio tirou Getúlio Vargas de uma situação crítica e
o projetou na história como o presidente da república mais lembrado até
hoje. A deposição e a cassação fizeram muito mal ao também fazendeiro
dos pampas gaúchos João Belchior Marques Goulart, herdeiro de Getúlio.
Ele morreu deprimido e melancólico do outro lado da fronteira, impedido
de voltar ao seu país pelos militares vingativos que assumiram o poder.
Mas está revivendo nos livros que começam a ser escritos sobre ele, com
um enfoque menos cáustico do que os anteriores.
E Lula? Ao que parece, apesar de tudo, ele parece empenhado em consumar outra façanha: ser o autor de si mesmo.
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